
Os dias de glória do bar já iam longe quando Antônio reformou o lugar, que começou a encher de gente bebendo em pé na calçada e de pessoas levadas pela fama do risoto de camarão. Era o início de uma rede. Na inauguração de cada nova unidade, o nome na fachada é acompanhado pelas palavras “desde 1952”, o ano de nascimento da matriz no Flamengo. É esse marketing da nostalgia que ele vem buscando ao investir em novas empreitadas: suas aquisições mais recentes foram casas cariocas de tradição, como o Nova Capela, na Lapa (desde 1903), o Bar Amarelinho, na Cinelândia (desde 1921), e o Cervantes, em Copacabana (desde 1955).
O próximo endereço nessa lista de clássicos vai ser a Pizzaria Guanabara (desde 1964), epicentro do Baixo Leblon, point boêmio que viveu momentos de glória nos anos 80 do século passado. Antônio ainda não revela o que será feito por lá, só diz que o ponto é dele e “vamos ver que bicho que vai dar”. — Gosto da cidade, tenho que fazer por ela o que ela fez por mim — diz o empresário. — Não dá para pensar no dinheiro o tempo todo, e estou com a minha vida financeira resolvida.

A aparente teimosia se traduz em disciplina férrea no dia a dia: ele acorda todos os dias às 5h20, visita cada um de seus endereços cariocas e só dá o expediente por encerrado lá pelas 23h. Essa dedicação fez diferença quando a pandemia da Covid-19 chegou. Dos 1.100 funcionários no Brasil e dos 110 em Portugal sob sua tutela, não demitiu nenhum.
O primeiro trabalho por aqui, em um boteco de Icaraí, em Niterói, abriu a porteira para uma rotina de sacrifício, mas o levou a outras casas, com muitos turistas e gorjetas generosas. — Não tinha família, não tinha nada, então trabalhava das 11h às 2h. Era uma época em que o Rio recebia muitos turistas, e as gorjetas eram muito boas — lembra ele, que morava numa vaga com quatro beliches em Botafogo. — Nos dias de folga, comia uma vez só, um PF. À noite, ouvia música no rádio, mastigava um biscoito e ia dormir.




